VI

Posted in 6 on Julho 25, 2009 by rockmix137

Não sei se já alguma vez estiveste apaixonado, caro leitor. Se não, aqui vai uma dica da nossa boa Juliana: não queiras estar.
A não ser, claro, que queiras estar vulnerável a todo o tipo de dor, não te importas que o o teu estado de humor passe a estar sempre ligado ao do objecto da tua afeição e estejas disposto a entregar o teu coração para este poder ser pisado e esfrangalhado, e possivelmente assado num espeto. Nesse caso vai em frente, seu masoquista! Longe da Juliana querer meter-se com a tua noção de felicidade.
E a nossa amiga só tinha sentido estes efeitos ao de leve, mesmo assim querendo remeter ao máximo todas as lembranças desse época negra para um canto obscuro da sua mente. Talvez por isso, Juliana não se recordava facilmente de um dos efeitos mais “engraçados” da paixão: as temidas borboletas no estômago. E, ó ingénua, como poderia ela imaginar que era isso a afectar a sua adorada alma gémea?
- Céus, estás tão pálido! Sentes-te bem? Será que aqueles m&m’s estavam estragados? Corante laranja duvidoso…
- Estou normal. Sou pálido de nascença, genes ingleses, remember?
Na verdade, Índigo não estava normal e sabia-o bem. Doces estragados não lhe dariam aquela vontade súbita de ir dançar para um monte de verdejante, correr até ter um ataque de coração (que lhe parecia eminente), ou daria? No seu intimo, a esperança de que Juliana estivesse certa. Mas, como se sabe, o bartôlo do cupido não está nem aí para o que esperamos ou deixamos de esperar…
- YOO!
Indy parou, e olhou em volta e para baixo. A sua pequena companheira não estava ao seu lado. Bizarro… Virou-se para trás e eis Juliana a uns 20 metros de distância, naquela posição que o Sonic costuma fazer quando parado, olhar carrancudo, braços cruzados e pé a bater no chão impacientemente. O rapaz corou um bocadinho, dado que o grito havia captado a atenção de alguns colegas em redor que observavam curiosos enquanto ela se apressava a ir ter com ele… ou assim ele pensava, pois ela continuou em frente, obrigando-o a mexer-se depressa para lhe acompanhar o passo.
- Desculpa, Julie, estava distraído..
- Não venhas com “Julie”! Estavas a pensar na Eva, não era?
- Não, não estava nada a pensar na Eva – respondeu o amigo, a revirar os olhos.
- Então…?
Índigo foi poupado a reponder por Chuck, que surgiu alegremente vindo sabe-se lá de onde, abraçando Juliana por detrás, que se debateu ao ser agarrada pela criatura.
- Olá pessoas! Então, que acharam do novo colega? – perguntou o rapaz animado.
- LARGA-ME IDIOTA! – gritou Julie.
- Ó amor, não sejas assim. Quanto mais me bates, mais gosto de ti!
Então Juliana mudou de táctica. Em vez de espernear, afincou os dentes no braço do seu agressor que soltou um “AU!” e a largou. Imediatamente, a rapariga foi-se colocar junto a Índigo, que serviria de barreira de protecção. Mais uma vez, o seu amigo revirou os olhos.
- Ok, querida. Por agora, nada de demonstrações públicas de afecto. Não sabia que eras tão tímida.. – Chuck declarou em tom compreensivo, e agarrado ao braço dorido. Juliana lançou-lhe um olhar de ódio. – Voltando ao assunto. Que acharam do novo colega, hein?
- Sei lá. Normal. Cara de francês. Normal – Índigo nem sabia o que estava a dizer mas sentiu a necessidade de responder. O seu coração parecia querer saltar do peito.
- Jules é nome de paneleiro – afirmou o outro.
Juliana exlamou “Chuck!” horrorizada. Indy ficou com cara de quem se engasgara no próprio cuspo.
- Calma! – apressou-se Chuck a explicar – Não queria dizer que ele é paneleiro. Quero dizer que o nome é paneleiro. Mas também não foi um insulto, sou todo a favor dos gays e tal. Mais miúdas sobram para mim.

Juliana chegou a casa como se fosse um dia normal, não fazendo ideia do tumulto que ia na alma da sua alma-gémea. Sim, ele tinha estado um bocado estranho durante o dia, mas ele às vezes ficava assim, meio apanhado nos seus pensamentos. Era da sua opinião que ele pensava demasiado, mas enfim.
Estava ela inocentemente a ir para a cozinha, de onde provinham vozes animadas quando sai a sua mãe de lá e lhe espeta um pássaro à frente.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
A filha não estava decididamente à espera de se deparar com uma ave e, depois do grito, desequilibrou-se e caiu para trás, no meio do chão. A estabilidade nunca foi o seu forte.
A sua mãe olhou-a irritada.
- Não é preciso seres tão dramática. Não é lindo?? – e fez questão de aproximar mais o pássaro da cara de Juliana que se estava a começar a levantar e resolveu voltar ao chão para evitar mais proximidade com o animal.
- Papagaio! Um papagaio! – foi tudo o que Julie conseguiu dizer.
Endireitando-se, e afagando o dito papagaio ao seu pescoço – para alivio de Juliana, que se pôde levantar e afastar mais -, a mãe corrigiu irritadamente “Não é um papagaio. É uma caturra.”
- Olá filha! – cumprimentou o pai, vindo da cozinha e todo sorridente, acompanhado por Hugo, o irmão mais novo de Juliana que a encarava com um ar deliciado de maldade.
- Pai. Temos um papagaio em casa.
- Não é um papagaio, filha. É uma caturra – repetiu o pai.
- Está-me a olhar de lado.
- Acho que não o consegue evitar. Tem um olho em cada lado da cabeça.
Os pais estavam errados. Aquilo não era uma caturra. E também não era um papagaio. Era um produto do mal, vindo de algum sitio do Inferno para a atormentar. Aquelas penas brancas e crista eram um mero disfarce e distracção dos seus olhos vermelhos maldosos, que a fitavam.
- Chama-se Chiquito – informou Hugo.
Juliana não desviou a atenção da caturra, para provar que não tinha medo. Chiquito. O seu arqui-inimigo.